APRESENTAÇÃO

APRESENTAÇÃO
Nada mais oportuno e gratificante, no mundo acadêmico, do que apresentar mais uma edição de uma Revista já consagrada em nível nacional e internacional pela sua relevância, periodicidade e pela temática a qual se tem dedicado há mais de uma década.
O número dois do volume 20 do Caderno Espaço Feminino, uma realização do Núcleo de Estudos de Gênero e Pesquisa sobre a Mulher da Universidade Federal de Uberlândia se apresenta recheado de excelentes e instigantes textos elaborados por renovados(as) pesquisadores quer nacionais ou internacionais.
Dado ao leque de abrangência deste número achamos por bem categorizar os artigos em quatro grupos temáticos: Comida e Gênero; Gênero e Representação; Sexualidade e Política Feminista.
Comida e Gênero: repensando teorias e práticas compôs o número 01, volume 19 da edição anterior e devido ao recebimento de inúmeros artigos sobre esta abordagem, abre-se esta edição com seis artigos bastante interessantes sobre o tema.
Utilizando-se de receitas culinárias como fonte da História Social da Alimentação, Eliane Monteiro Considera, faz sua reflexão partindo da obra O Livro das Noivas por sua singularidade em apresentar as receitas culinárias acompanhadas de artigos cujo objetivo era preparar a jovem esposa para garantir o bem-estar da família, função primeira da mulher na sociedade brasileira do início do século XX.
Isabel M. R. M. D. Braga busca nos documentos do Santo Ofício da Inquisição em Portugal, o papel das mulheres nos sinais de identidade e de diferença face à alimentação praticada pelo grupo majoritário dos cristãos-novos portugueses dos séculos XVI e XVII.
Compreendendo que a comida, para além de sua materialidade, envolve sentidos simbólicos, Josiane Carine Wedig e Renata Menasche traçam paralelos entre as classificações que organizam o lugar dos vários componentes na hierarquia familiar e aquelas que ordenam suas práticas alimentares em famílias camponesas.
“Imigração, alimentação e luteranismoem Blumenau (SC)” de Marilda C. G. da Silva analisa o papel das sociedades de senhoras evangélicas, na formação das mulheres em Blumenau, tendo como foco uma educação voltada para a economia doméstica, a administração da casa e o cuidado com as crianças.
As investigadoras mexicanas, Sara Elena Pérez-Gil e Gabriela Romero e a docente Aramanta Veja, do Instituto Nacional de Ciências Médicas y Nutrición Salvador Zubirán da cidade do México discutem a importância de se introduzir a análise de gênero nos estudos sobre alimentação e nutrição e concluem que as mulheres são as principais protagonistas das fases do processo alimentar e da divisão sexual do trabalho doméstico.
E, finalmente para fechar este bloco temático, Adriana R. Athila analisa através de práticas prescritivas que se seguem à morte de uma harpia, entre os índios Rikbaktsa do sudoeste amazônico, os domínios e espaços tidos como masculinos e femininos nesta cultura.
Discutir o gênero traz à tona uma gama de particularidades e argumentações sobre as práticas discursivas e a construção de significados que determinam distinções sociais atribuídos ao masculino e ao feminino. É nesta perspectiva que vislumbra-se a representação da imagem feminina nos anúncios da Revista de Ginecologia e d’Obstetrícia publicada no início do século XX, estudada por Patrícia de Freitas na propaganda realizada junto aos médicos.
Luciana R. F. Klanovicz também ao percorrer o caminho da representação feminina optou pelo mapeamento das imagens da seção Moda da Revista Veja nos anos de 1980. Sobre as escolhas do vestir construiu-se um discurso com o objetivo de manter a distinção entre homens e mulheres por meio da indumentária.
Desconstruindo a desigualdade de gênero na obra, Os Guaxos, de Barbosa Lessa, Jocelito Zalla indica que o autor constrói o gaúcho ideal enquanto “homem” contra modelos de ser mulher e contra papéis marginais de masculinidade.
Ângela Prada e Roberto Berton De Ângelo analisaram a série de fotografias “Untitled Film Stills” da artista americana Cindy Sherman a partir de sua inserção nos debates sobre a questão do feminismo na arte contemporânea.
Gênero e sexualidade está contido em quatro artigos desta Revista. Rafael C. V. Barreto utiliza-se dos conceitos de diversidade, respeito às diferenças, preconceito e discriminação para descrever a homossexualidade masculina na Rua Farme de Amoedo, no Rio de Janeiro, como um território de convivência homossexual e de identidade coletiva.
O uso da camisinha masculina nas cidades de Belo Horizonte e Recife é o objeto de investigação de Paula Miranda-Ribeiro et al atrelado ao poder de negociação das mulheres com seus parceiros sexuais. Nem tentariam? Esta é uma das questões levantadas pela pesquisadora.
A teoria queer e as sexualidades periféricas, apresentadas pelo sociólogo Carlos F. Hernández, professor da Universidade Autônoma do México, discute o conceito da palavra inglesa “queer” que não tem tradução no espanhol e sua natureza subversiva e transgressora.
Ainda no campo da sexualidade Karla M. Enacles e Luciana P. Zucco trazem à tona uma reflexão sobre a apropriação do corpo feminino nas propagandas de cerveja e o apelo sexual enquanto uma estratégia publicitária destes comerciais.
Através de parte da correspondência da cientista e feminista brasileira Bertha Lutz, João G. da S. Ascenso propôs uma abordagem de suas opiniões a respeito da segunda guerra mundial e o papel que ela atribuía às mulheres durante o conflito e na sociedade a ser construída no pós-guerra.
O feminismo e o movimento de mulheres colocaram-se como importantes atores para a análise das temáticas sobre o estado e a democracia no Brasil da década de 1990 sobretudo na definição de políticas públicas institucionais conforme reflexões sociológicas empreendidas pro Silvana A. Mariano.
E, por fim a Revista Caderno Espaço Feminino brinda os leitores e as leitoras com o ensaio de Ricardo Japiassu sobre a delicadeza e a suavidade da Imperatriz Dona Leopoldina do Brasil e sua importância nas decisões da política do primeiro reinado.
Tenham todos e todas uma agradável leitura.
Profa. Dra. Jane de F. S. Rodrigues, integrante do Núcleo de Estudos de Gênero e
Pesquisa sobre a Mulher da Universidade Federal de Uberlândia